quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico¹,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável²,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam³,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

¹ Telúrico: relativo à Terra.
² Inefável: que não se exprime em palavras.
³ Persignar-se: Benzer-se com o sinal da cruz

Por: Júlia Queiroz

Um comentário:

  1. O Drummond, realista como é, conseguiu desmitificar o amor... Coisas que eu tenho dificuldade pra enxergar algumas vezes. Acho que ando ansiosa demais ultimamente pra alguma coisa relacionado à isso acontecer, e na verdade essas coisas simplismente acontecem quando menos esperamos!

    Ansiedade, expectativa, eu tenho uma eca disso!

    ResponderExcluir