quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A Hora do Cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre¹
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

¹ Ocre: Cor amarela acastanhada de uma argila colorida por um óxido.

Por: Júlia Queiroz

Um comentário:

  1. Estamos sempre mudando, renovando, acho que nada é constante. Coisas vêm, vão... Mas nada permanece igual.

    "Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
    rebaixamos o amor ao estado de utilidade."

    Final de relação total!

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