quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os textos abaixo foram retirados do livro 'Cartas Extraviadas', da Martha Medeiros.

Deliciem-se.
o homem vive a vida que lhe foi outorgada
dorme e acorda, come e expele, ganha e gasta
o homem vive a vida, qualquer vida, a vida que lhe foi atribuída

outro homem vive uma vida, a sua vida
dorme e acorda, e entrementes vibra, sofre, pensa, faz
come e expele, e entrementes cria, repensa, transfere coisas do lugar
este homem vive uma vida, a sua vida, uma vida por ele mesmo conferida

dois homens desiguais:
uma vida perdida
e uma vida vingada
Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.

Sumi porque não há futuro e isso até não é o mais difícil de lidar, o pior é não ter presente e o passado ter mais fluido que o ar.

Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-me é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.
estava caminhando de biquíni na beira da praia
numa daquelas manhãs em que nada há para se pensar
mar azul, picolé, um sorriso bobo na face
quase criança de tanto nada para me atazanar

aí passou alguém por mim de camiseta
uma camiseta onde estava escrito: Quem é você?
apenas isso na camiseta, não era propaganda
Quem é você? simplesmente: Quem é você?

perdi o mar de vista e o sorriso evaporou do meu rosto
o picolé perdeu o gosto, eu já não era criança
Quem é você?, uma camiseta me perguntou
e a resposta deveria ser mais do que o não sei que me assaltou

quem sou? mulher, com garantia
e seria ousadia prosseguir: se madura ou biruta ou grotesca
se sensível ou irracional ou se mais uma igual a todas
nada me define e eu definho, queria tanto ter certeza

erro noite e dia, tenho consciência apenas do que faço mal
atitudes certas e palavras oportunas: não confirmo existência
faço tudo trocado, às avessas, sem jeito, e choro aos montes
difícil existir no mundo sem um bom planejamento pessoal

Quem é você?, me pergunta uma camiseta
e me desconsolo com a resposta que não tenho para esta peça de roupa
eu não sou nada, ninguém, não sou daqui, não assimilei as regras
sou uma indefinição bem disfarçada e que anda às cegas
o que é mais sagrado, um amor
que permanece inalterado
ou a paixão, que te enfarta três vezes ao dia?

o que é mais danoso, um amor
que deixa a vida em ponto morto
ou a paixão, que te leva contra um poste?

o que é mais procurado, um amor
oferecido em classificados
ou a paixão, que nunca está onde se espera?

o que é mais calamitoso, um amor
gelatinoso ou a paixão explosiva?
não há resposta que nos sirva
dias passam e não trazem alento
aguardo quase ansiosa um troço
que pode ser verbo, voz, imagem
mulher não tolera ausência de sinal
para o bem ou para o mal, diga algo
que preencha a voragem do silêncio

Carta Extraviada 4

Sou mais um desses boçais que escreve tudo aquilo que deveria ser falado,m e você é mais uma vítima que jamais vai ter atendido o seu desejo: saber. Mesmo consciente da sua boa vontade de me ouvir e entender, lhe escrevo, não posso ir além, não peça para remeter-me, esta carta não é para chegar, é uma carta de ficar.
Pra mim e pra você,escrevo que, daqui de onde me encontro, você está longe e perto, e eu estou sozinho e não. Do que sinto, aviso que é forte mas não é perigoso, é como um grande lago sereno, eu sou o píer, quase me precipito, você é todo o resto, toda água, tudo o que há. Mas somos dois e em vez de par, somos ímpares. Estou possuído por você e ao mesmo tempo permaneço impermeável, amo a seco, e rendido.
Você não me acharia covarde, você não acharia nada: você não me conhece. Sou um vulto, um alguém, você foi gentil comigo como é com os garçons e os primos, com os pedestres e com os turistas, você foi o que sempre foi, e eu não fui com você: no terceiro minuto ao seu lado eu já sabia que era irremediável, e em vez de segurar sua mão e reverte-lhe a pressa, deixei que você fosse, eu fiquei.
Os dias, os gestos, rituais cotidianos, surpresas, tudo corre, tudo passa por mim, menos o susto deste amor que entranhou-se feito limo, umidade em peito árido, me sinto tomado, absorvido, e não encontro método ou coragem para dizer: você que é motivo e dona desta represa, fique comigo, pois é só o que eu sei fazer, ficar.
Mas você é ligeira, em movimento constante, você não senta, não repara, quer vida demais, sedenta, me fisgou muito rápido, e eu sou lento, estudado, incapaz de um repente, apaixonado por uma mulher impaciente, que suplica com o olhar e não espera, você se foi, em frente, quando deveria ter ficado.
Você não me conhece, não houve tempo. Seu olhar me autorizava o flerte, se eu lhe acompanhasse, rogaria por um beijo,m e de mãos dadas o nosso caminho haveria de ser compartilhado. Mas eu sou mais um desses boçais que não falam, que pensam demais antes do próximo passado, e você é mais uma vítima de um amor não consumado.
há momentos em que nossos valores se rompem
certezas se estilhaçam como cristal
viram pó nossas convicções
princípios só se justificam no final
se até dia vinte ele me ligar, é porque vai rolar
se até quinta-feira não chover, passa a ser provável
se até seis da tarde o comercial passar duas vezes
é sinal de que tudo vai acontecer como o planejado
mulher adora dar um prazo para o imponderável
o tempo traz
o tempo tira
o tempo falta
o tempo vigora
o tempo voa
o tempo não passa
o tempo é a favor ou contra
conforme a hora
te amei e amei minha fantasia
amei de novo e amei a nossa estreia
amei meu próprio amor e amei a tua audácia
te amei muito e pouco e comovidamente
amei a história construída, os ritos e os porquês
te amei no invisível e no inaudível
amei no crível e no incrível
amei ser dona e te amei freguês
te amei e amei a farsa arquitetada
amei o nosso caso e amei a nossa casa
amei a mim, amei a ti, parti-me ao meio
te amei no profundo, no raso e com atraso
não era tua hora, não era minha vez
janelas e portas abrem e se fecham
há cortinas dentro que se mesclam
muitos tecidos que escondem e revelam
janelas e portas batem e silenciam
há grades dentro e por fora
aberturas e mínimas chances de fuga
janelas e portas protejem e iludem
vidros são limpos e escuros
há marcas de mãos perto dos trincos
eu diria do amor que o amor é reto
que o asfalto do amor acaba
mas o amor continua
desbravando o mato
saudade eu tenho do que não nos coube
lamento apenas o desconhecimento
daquilo que não deu tempo de repartir
você não saboreou meu suor
eu não lhe provei as lágrimas
é no líquido que somos desvendados
no gosto das coisas o amor se reconhece
o meu pior e o meu melhor e os seus
ficaram ser ser apresentados